XP Soluções Industriais

07 de outubro de 2026

Pegou serviço que exige EPS qualificada e não tem nada? O roteiro de 10 dias

Pegou serviço que exige EPS qualificada e não tem nada? O roteiro de 10 dias

O pedido foi fechado. Dias depois chega a lista de documentos do cliente: EPS qualificada, RQPS, qualificação dos soldadores, certificados de material. E a fábrica não tem nenhum desses papéis.

Já vi essa cena muitas vezes. A empresa solda bem há anos, tem gente boa e máquina boa, mas nunca precisou provar. Agora precisa, com o prazo de entrega correndo.

Antes do roteiro, as siglas. EPS é a Especificação de Procedimento de Soldagem, que em inglês se chama WPS. RQPS é o Registro da Qualificação do Procedimento de Soldagem, o PQR das normas americanas (WPQR na ISO). pEPS é a EPS preliminar, a proposta que ainda não foi testada (na ISO aparece como pWPS). Se a diferença entre EPS e RQPS ainda não está clara, vale ler RQPS x EPS: qual a diferença antes de seguir.

E um aviso honesto logo de cara: 10 dias é o prazo normal, contando do dia em que o corpo de prova é soldado com acompanhamento até a entrega. A leitura do contrato e a matriz (dia 1 deste roteiro) entram antes ou no mesmo dia, e não dá para pular. Também não depende só de você: depende do laboratório e do material chegar com certificado. Já tive caso que fechou em 5. Vou mostrar onde cada dia costuma ser perdido.

Dia 1: ler antes de soldar

É o dia que mais gente quer pular, e é o que mais economiza dinheiro.

Defina qual norma manda. O contrato, a especificação técnica do cliente ou o código de projeto definem a norma de qualificação. Vaso de pressão pela ASME VIII exige qualificação pela ASME IX. Estrutura metálica costuma pedir AWS D1.1. Cliente europeu, ou projeto que cita EN, tende a pedir ISO 15614-1 para o procedimento e ISO 9606-1 para o soldador. Petrobras tem a N-133 por cima de tudo isso. Não chute: está escrito em algum documento do pedido, e às vezes em mais de um, com exigências adicionais.

Levante as juntas do serviço. Com os desenhos na mão, monte uma tabela simples: material de cada junta, espessuras, diâmetros de tubo, tipo de junta (topo ou ângulo, com ou sem cobre-junta), posições de soldagem e processos que a fábrica usa de verdade. Anote também se o contrato pede ensaio de impacto, tratamento térmico pós-soldagem ou dureza máxima. Esses três itens mudam o plano de qualificação inteiro.

Leia os requisitos extras do cliente. Tem contrato que exige ensaio que a norma não pede, ou laboratório aprovado pelo próprio cliente. Descobrir isso com o corpo de prova no laboratório significa refazer corpo de prova.

Dia 1, parte 2: a matriz mínima de EPS

Com a tabela de juntas pronta, vem a parte de engenharia: cobrir o máximo de juntas com o mínimo de corpos de prova.

Cada norma define faixas de qualificação. Um corpo de prova numa determinada espessura qualifica uma faixa de espessuras de produção. Um material qualifica outros do mesmo agrupamento (na ASME, o P-Number). Uma junta de topo com penetração total, em muitos casos, também cobre soldas em ângulo. As regras exatas estão nas tabelas de cada norma, na ASME IX a QW-451 (e a QW-202.2 para filete), e é ali que se decide se o serviço precisa de duas EPS ou de seis.

Na prática, a matriz responde três perguntas:

  • Quantos corpos de prova de procedimento eu preciso soldar, e em que espessura, material e processo?
  • Quais ensaios cada um vai precisar, conforme a norma e o contrato?
  • Quantos soldadores vão soldar esse serviço, em quais processos e posições?

Quem pula essa etapa costuma cometer um de dois erros. Qualifica demais, pagando corpo de prova que não precisava. Ou qualifica a faixa errada, descobre na auditoria que a EPS não cobre a espessura da peça e paga o laboratório duas vezes. O segundo é o mais caro.

Aqui também se define se dá para usar EPS pré-qualificada. A AWS D1.1 permite, dentro de condições bem fechadas de material, junta, processo e consumível. Mas muito contrato não aceita, e exige RQPS. Leia o contrato antes de contar com isso. Emprestar ou “alugar” a EPS de outra empresa não é saída, e o motivo está neste artigo.

Ligue para o laboratório no mesmo dia (e, se a norma for ISO 15614-1, para o examinador que vai testemunhar). Pergunte o prazo de usinagem e ensaios para aquela quantidade de corpos de prova, se fazem impacto na temperatura exigida, se estão com fila. E peça por escrito. Em 10 dias, o laboratório é o caminho crítico.

Dia 2: pEPS, material e corpos de prova

Escreva as pEPS. Uma para cada corpo de prova da matriz, com todas as variáveis que a norma exige, já pensando nas faixas que você quer qualificar. Se você trabalha com ASME, o modelo de EPS em Excel que eu disponibilizo mostra o que não pode faltar.

Separe o material com certificado. Chapa, tubo e consumível do corpo de prova precisam ter certificado e identificação rastreável. Material de sucata sem origem não serve. Na ISO, quem valida a RQPS confere isso. Na ASME e na AWS, o auditor do cliente também vai conferir.

Solde os corpos de prova. Um soldador da própria empresa, seguindo a pEPS, com alguém acompanhando e registrando os parâmetros reais: corrente, tensão, velocidade, temperatura de pré-aquecimento e interpasse, consumível usado. A RQPS registra o que aconteceu de fato, não o que estava escrito na pEPS. Registro feito “de memória” depois é o que mais gera RQPS inconsistente.

Se a norma for ISO 15614-1, a soldagem e os ensaios do corpo de prova precisam ser testemunhados por um examinador ou organismo examinador. Isso tem que estar agendado antes, senão o corpo de prova soldado no dia 2 fica esperando testemunha.

Dias 3 a 8: laboratório e prazos reais

É aqui que o roteiro de 10 dias fecha ou estoura.

Os ensaios dependem da norma e do contrato: tração e dobramento são a base na ASME IX. A AWS D1.1 soma ensaio não destrutivo (radiografia ou ultrassom) e, em penetração parcial e filete, macrografia. A ISO 15614-1, no nível 2, exige END visual, volumétrico e superficial, além de macrografia. Impacto e dureza entram quando a norma, o material ou o contrato pedem. Cada ensaio a mais é usinagem a mais e dia a mais.

Na minha experiência, do acompanhamento da soldagem do corpo de prova até a entrega da EPS qualificada, com ensaios e documentação completa, o normal é 10 dias. Já fechei em 5. Quando passa disso, o motivo costuma estar nesta lista:

  • Tratamento térmico pós-soldagem no corpo de prova, que precisa ser feito antes dos ensaios.
  • Ensaio de impacto, que exige usinagem de corpos de prova específicos e, às vezes, laboratório diferente.
  • Material sem certificado, descoberto quando o corpo de prova já está soldado.
  • Material do corpo de prova que ainda precisa ser comprado.
  • Reprovação. Um dobramento que abre por falta de fusão manda você de volta para o dia 2.

Se o seu serviço tem impacto e tratamento térmico ao mesmo tempo, fale com o cliente logo. Dez dias pode não fechar, e é melhor negociar prazo no dia 1 do que no dia 10.

Dias 9 e 10: RQPS, EPS final, soldadores e o que o cliente vai auditar

Com os laudos aprovados, emite-se a RQPS de cada corpo de prova e, a partir dela, as EPS finais, com as faixas que a qualificação realmente cobre.

Agora os soldadores. Na ASME IX (QW-301.2), o soldador que soldou um corpo de prova de procedimento aprovado já fica qualificado dentro dos limites daquele teste. É uma economia que pouca gente planeja: escolher no dia 2 quem vai soldar o corpo de prova já é escolher o primeiro soldador qualificado.

Os demais fazem o teste de desempenho seguindo a EPS qualificada (na ISO 9606-1, o teste pode ser feito já com a pEPS, o que permite adiantar essa etapa), com os ensaios que a norma pede para soldador (dobramento ou, quando a norma permite, ensaio radiográfico ou ultrassom). Esses testes andam junto com a emissão das EPS, mas os laudos dos soldadores podem passar do dia 10. Depois vem o registro de qualificação de cada um, com as faixas de posição, espessura e diâmetro que ele cobre. O serviço de qualificação de soldadores da XP cuida justamente dessa parte.

Uma dica que economiza: treine os soldadores na junta e na posição do teste enquanto o corpo de prova de procedimento está no laboratório. Reprovar soldador por falta de treino na posição sobrecabeça custa um novo corpo de prova e mais alguns dias.

Ter EPS e soldador qualificados não encerra o assunto. O cliente vai querer ver como isso vira controle na produção:

  • Lista de EPS aplicáveis e quais juntas cada uma cobre, o mapa de solda.
  • Lista de soldadores qualificados, com processos, faixas e controle de validade. Qualificação de soldador perde validade se ele ficar parado no processo, e isso precisa de acompanhamento, como explico em revalidação de soldadores.
  • Certificados de material e de consumível do serviço, analisados contra a especificação.
  • Estrutura do data book, para ir preenchendo durante a fabricação e não no dia da entrega.

O que corre em paralelo e o que não corre

Dá para fazer ao mesmo tempo:

  • Escrever as pEPS enquanto o material do corpo de prova é separado e conferido.
  • Treinar os soldadores enquanto o laboratório ensaia.
  • Montar mapa de solda, listas e estrutura do data book enquanto espera os laudos.
  • Analisar certificados de matéria-prima do serviço assim que chegam.

Não dá para paralelizar:

  • Soldar corpo de prova antes de fechar a matriz. É o erro que mais custa.
  • Emitir EPS final antes do laudo aprovado.
  • Liberar soldagem de produção antes de EPS e soldador qualificados. Se o cliente descobrir que a peça foi soldada antes, o problema deixa de ser documental.

Resumo do roteiro

Dia O que sai dele
1 Norma definida, tabela de juntas, matriz mínima de EPS, laboratório consultado
2 pEPS emitidas, material certificado separado, corpos de prova soldados com acompanhamento e enviados
3 a 8 Ensaios no laboratório (o ponto que define se 10 dias fecha)
9 e 10 RQPS, EPS finais, soldador do corpo de prova qualificado, testes dos demais soldadores iniciados, mapa de solda, controle de soldadores, data book estruturado

Roteiro didático. Tabelas de faixas e ensaios obrigatórios estão na norma aplicável ao contrato (ASME IX QW-451, AWS D1.1, ISO 15614-1 e ISO 9606-1): consulte sempre a edição exigida.

Para fechar

A empresa que passa por isso uma vez sai com algo que não tinha: EPS qualificadas que ficam na casa e servem para os próximos pedidos. O segundo serviço parecido já não começa do zero.

Se você está com o pedido fechado e a pasta vazia, me chama antes de soldar o primeiro corpo de prova. A gente começa pelos desenhos e pelo contrato, monta a matriz mínima e planeja o prazo junto com o laboratório. Conheça o serviço de qualificação de EPS ou, se quiser aprender a montar a sua, o curso de EPS pela ASME IX.

Fale comigo no WhatsApp (19) 99943-3737: wa.me/5519999433737