23 de outubro de 2026
Falta gente na indústria: o gap da soldagem em cada nível

Estive no VII Workshop Weld de Inovações em Soldagem. Teve palestra sobre corte a hidrogênio, sobre consumíveis de soldagem, sobre análise de falhas em juntas soldadas e sobre novas tecnologias. Conteúdo técnico bom, do tipo que a gente leva para a fábrica na semana seguinte.
Mas o assunto que mais ficou comigo não veio de nenhuma palestra técnica. Veio do painel sobre o futuro da soldagem, e ele pode ser resumido numa frase: falta gente interessada em trabalhar na indústria.
Neste artigo quero desenvolver esse ponto com calma. O que cada nível da cadeia da soldagem faz, por que a falta de cada um pesa para quem fabrica, onde a inteligência artificial entra nessa história e, principalmente, quais caminhos existem para quem quer entrar ou crescer na área.
No VII Workshop Weld de Inovações em Soldagem.
O gap não está só no chão de fábrica
Quando se fala em falta de mão de obra na indústria, a primeira imagem que vem é a do soldador. E faltam soldadores e caldeireiros, isso é real. Só que o debate deixou claro que o buraco é mais fundo: faltam também inspetores, técnicos, engenheiros de soldagem e pesquisadores.
Falta gente em todos os níveis.
E cada nível segura uma parte diferente do resultado. Uma junta soldada que chega boa ao cliente passou pela mão de muita gente, mesmo que só uma pessoa tenha segurado a tocha.

Soldador e caldeireiro
É quem monta, conforma e executa a junta seguindo a EPS. Sem eles não tem produção, simples assim. Quando falta soldador qualificado, o pedido fica parado na bancada, o prazo escorrega e a empresa começa a recusar serviço que saberia fazer.
Inspetor de soldagem
O inspetor confere antes, durante e depois da soldagem: material, preparação, parâmetros, aspecto do cordão, documentação. É quem libera ou reprova. Sem ele, o defeito aparece tarde, no ensaio final ou, pior, no cliente. Escrevi mais sobre esse papel em 10 motivos para ter um Inspetor N2 prestando consultoria na sua empresa.
Técnico
O técnico faz a ponte entre a engenharia e a produção. Acompanha a fabricação, organiza registros, controla quem está qualificado para quê. Quando falta, a documentação atrasa e a qualificação de um soldador vence sem ninguém perceber.
Engenheiro de soldagem
Define processo, consumível e sequência, elabora a EPS e investiga quando alguma coisa dá errado. Sem engenharia de soldagem, a fábrica acaba copiando procedimento de outro serviço e convivendo com o mesmo retrabalho todo mês. Falei disso em engenharia de soldagem: o elo entre a produtividade e a qualidade.
Pesquisador
É quem desenvolve os processos, consumíveis e tecnologias que a gente viu nas palestras do workshop. Sem pesquisa, a inovação demora mais a chegar ao chão de fábrica. E sem pesquisador formado, também não tem quem forme a próxima geração de engenheiros.
“Só faz doutorado quem não faz sucesso no TikTok”
Um dos debatedores, que é doutor, comentou de uma figurinha que tinha recebido com essa frase. Rimos.
Mas a piada resume bem o momento. Hoje se valoriza aparecer e viralizar, como se isso fosse um caminho fácil. Quase nunca é. Enquanto isso, a profissão “real”, aquela que exige anos de estudo e prática, passou a ser vista como chata.
Não acho que o problema seja a rede social em si. O problema é a comparação: de um lado, uma promessa de reconhecimento rápido; do outro, uma carreira em que o reconhecimento vem com o tempo, com cada qualificação, com cada equipamento entregue sem reparo.
“A IA sabe”
Esse foi outro ponto que me fez pensar. Com a inteligência artificial, o conhecimento nunca esteve tão acessível. Uma dúvida sobre consumível ou variável essencial se responde em segundos.
Paradoxalmente, as pessoas retêm menos. E talvez tenham menos vontade de aprender, já que “a IA sabe”.
Eu uso IA todos os dias e acredito muito nela. Mas ela não substitui o profissional que entende o que está fazendo, que interpreta uma falha ou que assina um laudo. Quem responde por uma junta soldada é uma pessoa, não uma ferramenta. A IA ajuda a chegar mais rápido na informação; decidir o que fazer com ela continua sendo trabalho humano. O pensamento crítico e individual é o que vale no final.
Ou seja: o problema hoje não é falta de tecnologia nem de informação. É falta de pessoas interessadas em se desenvolver e se tornar, de verdade, profissionais da área.
Como entrar e crescer na carreira de soldagem
Trabalhar na indústria é digno e honroso. Exige expertise técnica, treinamento e desenvolvimento contínuo, do primeiro cordão de solda ao projeto de um vaso de pressão ou a uma tese de doutorado. E há mais de uma porta de entrada.

Soldador e caldeireiro. O começo costuma ser um curso de soldagem, em escola técnica ou centro de formação, somado a muita prática acompanhada. O passo que abre portas é a qualificação de soldador: um teste feito conforme a norma do serviço (ASME IX, AWS D1.1, ISO, entre outras), seguindo uma EPS. Depois disso, crescer é somar processos, posições e leitura de desenho. Vale lembrar que qualificação precisa ser mantida, como expliquei em revalidação de soldadores.
Inspeção. Quem já tem vivência em fabricação ou formação técnica pode seguir para a inspeção de soldagem. No Brasil, a qualificação e certificação de Inspetor de Soldagem N1 e N2 é feita pelo sistema da FBTS, com curso e exames. Os requisitos de entrada de cada nível estão nas regras da própria FBTS, que vale consultar antes de se matricular.
Técnico. Um curso técnico em mecânica, metalurgia ou soldagem leva a funções de acompanhamento de produção, qualidade e planejamento. É o profissional que entende a bancada e conversa com a engenharia.
Engenharia e pesquisa. Graduação em engenharia (mecânica, de materiais, metalúrgica), especialização em engenharia de soldagem e, para quem gosta de ir fundo, mestrado e doutorado. É o caminho que estou fazendo, hoje no doutorado, e cada etapa mudou a forma como enxergo uma junta soldada.
Essas trilhas não são isoladas. Dá para começar soldando e, anos depois, estar na inspeção ou na engenharia.
O que a empresa pode fazer
Esperar o profissional pronto chegar pelo processo seletivo está ficando cada vez mais difícil. Algumas atitudes que estão ao alcance de qualquer caldeiraria:
- Formar gente dentro de casa. Colocar o ajudante ao lado do soldador experiente, com tempo e orientação, e não só como mão extra para carregar peça.
- Qualificar soldadores. A qualificação dá ao profissional um marco concreto de evolução e dá à empresa a base para pegar serviço que exige soldador qualificado.
- Ter EPS e sistema de soldagem organizados. Uma EPS clara, parâmetros definidos e registros em ordem facilitam treinar. O novato aprende com um procedimento escrito, e não só com o “jeito” de quem está ao lado.
- Mostrar o caminho. Deixar claro quem pode virar soldador qualificado, quem pode ir para a inspeção, quem pode estudar engenharia. Gente cresce onde enxerga para onde crescer.
Empresas, escolas técnicas, universidades e quem já está na área têm o mesmo desafio: mostrar que uma carreira na indústria é um caminho de orgulho, crescimento e reconhecimento.
E na sua empresa?
Fico com a pergunta que deixei no LinkedIn: na sua empresa, em qual nível esse gap mais pesa hoje? No soldador, no inspetor, no técnico, na engenharia?
Se a resposta passa por formar gente, a XP pode ajudar nessa estrutura. Fazemos qualificação de soldadores e qualificação de EPS, que são a base para treinar com procedimento e não só no improviso. Também temos cursos técnicos para equipes, da terminologia e processos de soldagem à qualificação de soldador, além do curso de elaboração de EPS pela ASME IX.
