01 de julho de 2026
RQPS x EPS: Qual a Diferença Entre os Dois Documentos?

Essa é uma das perguntas que mais recebo de quem está começando a lidar com documentação de soldagem. EPS e RQPS aparecem sempre juntos, são cobrados pelas mesmas normas (ASME IX, AWS D1.1, ISO 15614, Petrobras N-133) e, na prática, um não vale nada sem o outro. Mas são documentos diferentes, feitos em momentos diferentes e com função bem distinta.
EPS: o procedimento proposto
A EPS - equivalente à WPS (Welding Procedure Specification) das normas americanas - descreve como uma solda deve ser feita. É basicamente a receita: processo de soldagem (SMAW, GMAW, GTAW, FCAW, SAW…), consumível, faixa de amperagem e tensão, velocidade, posição, pré-aquecimento, interpasse e se entra tratamento térmico depois.
Toda EPS passa por duas fases. Primeiro existe a EPS Preliminar, que é o procedimento proposto, ainda sem nenhum teste que comprove que funciona. Depois de qualificada, ela vira EPS Final, já com respaldo dos ensaios e liberada para uso em produção.
RQPS: a prova de que a receita funciona
A RQPS - o PQR (Procedure Qualification Record) das normas americanas - é o registro do que realmente aconteceu quando um soldador executou aquela EPS preliminar em um corpo de prova. Enquanto a EPS diz o que deveria ser feito, a RQPS mostra o que foi feito de fato: os parâmetros usados na hora da solda e os resultados dos ensaios exigidos pela norma - tração, dobramento, impacto, macrografia, líquido penetrante, radiografia, dependendo do caso.
Dá para resumir assim: a EPS é a receita, a RQPS é a prova de que ela funciona.
Como os dois documentos se conectam

Na prática, o fluxo é sempre parecido. A engenharia de soldagem monta uma EPS preliminar com as variáveis propostas. Um soldador qualificado solda um corpo de prova seguindo exatamente essa especificação. O corpo de prova vai para os ensaios mecânicos e não destrutivos que a norma pede. Se os resultados passarem nos critérios de aceitação, eles são consolidados na RQPS - e é essa aprovação que transforma a EPS preliminar em EPS final, pronta para ir para a produção.
Sem a RQPS, a EPS continua sendo só uma proposta. Não existe garantia nenhuma de que aquela combinação de parâmetros realmente entrega as propriedades mecânicas exigidas.
Por que sua empresa precisa dos dois documentos
Já vi caso de auditoria travar simplesmente porque a empresa tinha a EPS engavetada, mas não conseguia achar a RQPS que a respaldava. E isso é mais comum do que parece: cliente, certificadora e órgãos como a Petrobras sempre pedem os dois juntos, e a EPS sem a RQPS correspondente é motivo clássico de não conformidade.
Tem outros motivos práticos também. A RQPS é o elo entre o que foi qualificado em laboratório e o que está rodando na produção - sem ela, não tem como provar que a solda de hoje segue o mesmo padrão testado. Ela também serve de base para qualificar soldadores (a ASME IX aproveita os corpos de prova de RQPS pra isso, o que economiza teste). E se uma junta falhar em serviço, é a RQPS que vai dizer se o procedimento usado era adequado ou não - o tipo de documento que ninguém quer precisar, mas que faz toda diferença quando precisa.
O que faz uma qualificação perder validade
Cada norma define um grupo de variáveis essenciais - processo, tipo de consumível, faixa de espessura, posição, pré-aquecimento, tipo de corrente, entre outras. Mudou uma dessas variáveis para fora da faixa que foi qualificada na RQPS? A EPS perde validade, mesmo que o resto do procedimento continue idêntico, e é preciso qualificar de novo: nova solda de corpo de prova, novos ensaios, nova RQPS.
Por isso vale a pena investir tempo numa EPS Preliminar bem pensada, cobrindo a faixa mais ampla possível dentro do que a norma permite. Isso reduz bastante a quantidade de qualificações (e de RQPS) que a empresa vai precisar gerar com o tempo.
Erros que vejo com frequência
- Usar uma EPS em produção sem checar se a RQPS que a respalda realmente cobre a espessura, o material ou a posição do que está sendo soldado.
- Guardar a RQPS separada da EPS, o que complica a vida na hora que o cliente pede os dois documentos juntos numa auditoria.
- Trocar um consumível “equivalente” sem verificar se essa troca ainda está dentro da faixa de variável essencial qualificada.
Para fechar
EPS e RQPS não competem entre si e não são intercambiáveis - são as duas metades do mesmo processo de qualificação. A EPS orienta a execução, a RQPS comprova que o procedimento é tecnicamente válido. Ter os dois bem feitos e bem organizados é o que garante passar em auditoria sem sustos, evitar retrabalho e ter uma base normativa sólida pra crescer em mercados mais exigentes.
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