XP Soluções Industriais
Calculadora de Solda de Olhal (Padeye)

Calculadora de Solda de Olhal (Padeye)

Filete contínuo na base do olhal, dimensionado pelo método da linha de solda (grupo de solda tratado como linha).

Por que o cálculo “rápido” de solda de olhal engana

Circula muito nas redes um exemplo simplificado: força de 50 kN, olhal de 80 mm de base e 20 mm de espessura, solda de filete contínua nos 200 mm de contorno, tensão admissível de 120 MPa. Dividindo força por tensão chega-se a uma área de 416,7 mm², garganta de 2,08 mm e a conclusão de “adotar filete de 4 mm de garganta”. A conta está certa — o modelo é que é incompleto.

Esse cálculo supõe que a carga é puramente vertical, centrada, estática e que todo o cordão trabalha igualmente ao cisalhamento. Um olhal real quase nunca é assim. Ele tem altura, logo a carga gera momento na base; a lingada raramente fica perfeitamente alinhada, logo aparece umacomponente fora do plano; e o içamento tem efeito dinâmico.

Rode a calculadora acima com os mesmos 50 kN e fator dinâmico 1,0, mas com apenas 5° fora do plano e ponto de aplicação a 100 mm da base: a garganta necessária sai de 2,08 mm para cerca de 4,17 mm — o dobro, com uma imperfeição de montagem que ninguém considera anormal. É por isso que olhal se calcula como grupo de solda submetido a esforço combinado, não como área simples.

O método usado nesta calculadora

O grupo de solda é tratado como uma linha (método consagrado por Blodgett e adotado na prática de projeto estrutural): calculam-se comprimento e módulos de resistência do contorno soldado com garganta unitária, obtém-se o esforço resultante em N/mm e só no final se converte em garganta e perna. As etapas são:

  1. Carga de projeto: Fd = F × fator dinâmico.
  2. Decomposição: Fz = Fd·cosβ·cosα (tração normal à base), Fx = Fd·cosβ·senα (no plano), Fy = Fd·senβ (fora do plano).
  3. Propriedades do contorno soldado (solda em todo o contorno): Lw = 2(L + t), Sx = L·t + t²/3, Sy = t·L + L²/3.
  4. Momentos na base: Mx = Fy·h e My = Fx·h.
  5. Esforço por milímetro de solda: fz = Fz/Lw + Mx/Sx + My/Sy, fx = Fx/Lw, fy = Fy/Lw.
  6. Resultante: fr = √(fz² + fx² + fy²).
  7. Garganta necessária: a = fr / τadm; perna do filete de pernas iguais: z = a·√2 ≈ 1,41·a.

Repare no ponto crítico: o módulo Sx, que resiste ao momento fora do plano, depende daespessura do olhal. Um olhal de 20 mm tem braço de alavanca de apenas 10 mm para esse momento. É a direção mais fraca da junta e a que mais reprova em verificação — e a que o cálculo simplificado ignora por completo.

Tensão admissível: qual norma manda

A resistência nominal ao cisalhamento na garganta efetiva do filete é 0,60·FEXX(AISC 360, seção J2.4, onde FEXX é a resistência do metal de adição). O que muda entre critérios é o fator de segurança aplicado:

  • AISC 360 – ASD: Ω = 2,00 → τadm = 0,30·FEXX (145,5 MPa para eletrodo E70XX).
  • ASME BTH-1 (dispositivos de içamento abaixo do gancho) – Categoria de Projeto A: Nd = 2,00, usada quando as cargas e condições de uso são bem definidas.
  • ASME BTH-1 – Categoria de Projeto B: Nd = 3,00, para condições de serviço severas ou indeterminadas — a maioria dos içamentos de campo.

A Categoria B não é preciosismo: é o reconhecimento normativo de que a carga real de içamento é incerta. Some a isso a Classe de Serviço (0 a 4) da BTH-1, que define a verificação à fadiga em função do número de ciclos — olhal de dispositivo usado diariamente não se dimensiona igual a olhal de içamento único de montagem.

A calculadora aplica a norma de forma conservadora em dois pontos: não usa o incremento direcional de resistência do AISC (1,0 + 0,50·sen1,5θ), permitido quando a solicitação não é paralela ao eixo do cordão, e soma vetorialmente todas as parcelas no ponto mais solicitado.

Perna mínima e perna máxima: a norma manda antes do cálculo

Duas verificações independentes do esforço, que reprovam muito filete “calculado”:

  • Perna mínima (AWS D1.1, tabela de tamanho mínimo de filete, em função da espessura da parte mais espessa da junta): 3 mm até 6 mm de espessura; 5 mm acima de 6 até 12 mm; 6 mm acima de 12 até 20 mm; 8 mm acima de 20 mm. Existe para garantir aporte térmico suficiente e evitar resfriamento brusco e trincas — não tem relação com a carga.
  • Perna máxima ao longo de borda livre (AISC 360, J2.2b): igual à espessura da chapa se menor que 6 mm; espessura menos 2 mm nos demais casos.

No exemplo original, com chapa base de 25 mm, a perna mínima normativa é 8 mm — o dobro do “adotar 4 mm” do cálculo simplificado. O esforço não mandava; a norma mandava.

Não esqueça o metal base

Solda nenhuma é mais forte que o material em que ela se ancora. A calculadora verifica o cisalhamento no olhal (0,60·Fu/Ω = 0,30·Fu, AISC 360 J4.2). Além dessa, o projeto do olhal ainda precisa cobrir: pressão de contato e rasgamento no furo do pino, área líquida, dimensionamento do pino, flexão da chapa base, necessidade de reforço (bochechas) e — quando a chapa base é solicitada na direção da espessura — o risco de rasgamento lamelar, que pede material com ductilidade na direção Z (ASTM A770 / Z35) e, em muitos casos, ultrassom da chapa antes da soldagem.

Equipamentos críticos e óleo & gás: filete não resolve

Tudo acima vale para o dimensionamento de um filete. Mas há uma classe de aplicação em que o filete simplesmente não é a solução aceitável — e essa é a parte que o exemplo simplificado nunca conta.

Em equipamentos críticos, em olhais de içamento de carga viva e, sobretudo, emóleo e gás (onshore e offshore), o requisito contratual e normativo típico é que a solda do olhal seja de penetração total (CJP – complete joint penetration), com chanfro preparado, soldagem qualificada e inspeção volumétrica completa. Os motivos são técnicos, não burocráticos:

  • Filete não é inspecionável por volume. A geometria do filete impede varredura ultrassônica confiável da raiz e inviabiliza radiografia interpretável. Não há como comprovar ausência de falta de fusão na raiz — exatamente onde a trinca nasce. Com penetração total, US e RX passam a ser aplicáveis.
  • A raiz do filete é um entalhe embutido. Para carga cíclica e para carga de içamento (com componente dinâmica e reversão), a raiz não fundida funciona como trinca pré-existente, derrubando a categoria de fadiga da junta.
  • Consequência de falha. Olhal que solta é carga em queda livre sobre pessoas e sobre equipamento pressurizado. O critério de projeto deixa de ser econômico e passa a ser de segurança de processo.

O pacote de ensaios não destrutivos usualmente exigido nesses casos:

  • Ensaios de superfície — LP (líquido penetrante) ou PM (partículas magnéticas): 100% dos cordões, incluindo os pés de solda e as regiões de remoção de dispositivos provisórios. Em materiais ferromagnéticos, PM é o método preferido, por detectar também descontinuidades ligeiramente subsuperficiais. Em austeníticos e não ferrosos, LP.
  • Ensaios volumétricos — US (ultrassom, convencional, phased array ou TOFD) ou RX (radiografia): 100% da solda de penetração total, para detectar falta de fusão, falta de penetração, trincas e inclusões internas.
  • Ensaio após tratamento térmico e com tempo de espera (delay) quando o material é suscetível a trinca a frio induzida por hidrogênio — tipicamente 24 a 48 h após a soldagem em aços de maior resistência e maior espessura.
  • END de remoção: ao cortar o olhal provisório, a região precisa ser esmerilhada até o metal base e reinspecionada por LP ou PM — corte rente e “deixa a marca” é fonte clássica de trinca no costado do equipamento.

Some a isso os requisitos que acompanham o pacote: EPS qualificada para a junta e a espessura reais, soldadores qualificados na posição de execução, controle de temperatura de pré-aquecimento e interpasse, consumíveis de baixo hidrogênio com controle de estufagem, tratamento térmico quando aplicável e, em serviço ácido, os limites de dureza de NACE MR0175 / ISO 15156. Quando o olhal é soldado ao costado de um vaso ou tubulação, a solda passa a integrar o escopo do código de projeto do equipamento (ASME VIII, ASME B31.3) e ainda entra em especificações de cliente, como as normas Petrobras de soldagem.

Checklist antes de liberar o desenho

  1. A carga de projeto inclui fator dinâmico e fator de segurança do dispositivo?
  2. Foi considerada componente fora do plano (mínimo usual de 5%, ou o ângulo real da lingada)?
  3. O momento devido à altura do furo foi verificado no grupo de solda?
  4. A perna atende ao mínimo normativo pela espessura da parte mais espessa?
  5. A perna respeita o máximo em borda livre?
  6. O metal base foi verificado (cisalhamento, área líquida, pressão no furo, rasgamento lamelar)?
  7. A aplicação é crítica ou de óleo e gás? Se sim: penetração total, LP/PM e US/RX definidos em desenho e no plano de inspeção.
  8. Há EPS/RQPS cobrindo a junta, a espessura e a posição? Há critério de aceitação declarado?

Esta calculadora é uma ferramenta de verificação rápida e de ensino. O cálculo final é responsabilidade do projetista, com base na edição vigente da norma aplicável e nos requisitos contratuais do projeto.