29 de julho de 2026
Categorias de Juntas Soldadas conforme ASME VIII (UW-3): Onde Está a Sua Solda?

Toda vez que dou aula ou faço uma consultoria sobre vaso de pressão, aparece a mesma confusão: alguém olha para um desenho, aponta uma solda de topo e diz “essa é categoria A”. Depois aponta um filete e diz “essa é categoria D”. A lógica parece funcionar, mas está errada.
Categoria não é tipo de junta. Categoria é localização.
O parágrafo UW-3 da ASME Seção VIII Divisão 1 é curto, quase burocrático, e é um dos que mais gera retrabalho quando lido pela metade. Ele não diz como soldar nada. Ele só responde uma pergunta: onde, dentro do vaso, aquela junta está? A resposta a essa pergunta é que vai puxar, lá na frente, o tipo de junta permitido, o grau de inspeção e as tolerâncias de montagem.
E tem novidade: a edição 2025 mexeu no UW-3. Além de revisar o primeiro parágrafo e duas subalíneas, ela trouxe uma quinta categoria para dentro da figura. Quem estudou por edição antiga aprendeu quatro categorias e hoje são cinco.
Categoria define localização, não tipo de junta
O próprio UW-3 abre dizendo que o termo “categoria” define a localização de uma junta no vaso, e não o tipo de junta. É uma frase que vale a pena reler.
Uma junta de topo pode ser categoria A, B ou C, dependendo de onde ela está. Uma junta de ângulo pode ser categoria B, C ou D. O tipo de junta (topo, ângulo, sobreposta, filete) é assunto do UW-9 e da Tabela UW-12. A categoria é assunto do desenho: é uma coordenada, não uma geometria.
Tem um segundo detalhe que quase ninguém comenta. A categoria só existe porque a norma precisa endereçar requisitos especiais a certas juntas, e esses requisitos dependem de serviço, material e espessura. Como eles não se aplicam a toda junta soldada do equipamento, só entram nas categorias as juntas que podem receber exigência especial. E o texto é ainda mais explícito: os requisitos especiais valem para as juntas de uma dada categoria apenas quando isso for expressamente declarado.
Ou seja, categorizar uma junta não significa que ela tem exigência extra. Significa que, se algum outro parágrafo endereçar exigência por categoria, aquela junta vai ser alcançada.

Figura UW-3, ASME BPVC Seção VIII Divisão 1, edição 2025. Reprodução da figura da norma para fins didáticos. Crédito: ASME.
A novidade da edição 2025: a Categoria F
O registro de revisões da edição 2025 marca duas alterações no UW-3. O primeiro parágrafo e as subalíneas (c) e (d) foram revisados, e a Figura UW-3 passou a incluir a Categoria F.
Com isso, o texto agora designa as juntas em Categorias A, B, C, D e F, e a nova subalínea (e) traz a definição:
Categoria F: juntas soldadas ligando tubos a espelhos conforme UW-20.
Na prática, a solda tubo-espelho de trocador de calor deixou de ser aquele caso “fora do enquadramento” e passou a ter designação própria dentro do UW-3. Os requisitos técnicos dela continuam no UW-20, que é onde estão as configurações admissíveis, as regras de resistência da junta e a qualificação. O que mudou é que agora ela tem um nome dentro do sistema de categorias, o que facilita bastante referenciar essa junta em plano de soldagem, IEIS e mapa de juntas sem inventar nomenclatura.
Se a sua empresa fabrica trocador de calor e usa procedimento interno com a lista antiga de quatro categorias, é um bom momento para atualizar o modelo.
As cinco categorias em uma tabela
| Categoria | Localização | Exemplos típicos |
|---|---|---|
| A | Juntas longitudinais e espirais no casco principal, em câmaras de comunicação, em transições de diâmetro ou em bocais. Qualquer junta dentro de uma esfera, dentro de um tampo (conformado ou plano) ou nas chapas laterais de um vaso de lados planos. Qualquer junta de topo dentro de um espelho plano. Juntas circunferenciais que ligam tampos hemisféricos ao casco, a transições de diâmetro, a bocais ou a câmaras de comunicação. | Solda longitudinal do costado, tampo hemisférico soldado ao casco, solda de composição de um tampo, emenda de topo dentro de um espelho plano |
| B | Juntas circunferenciais no casco principal, em câmaras de comunicação, em bocais ou em transições de diâmetro, incluindo as juntas entre a transição e o cilindro na ponta maior ou menor. Juntas circunferenciais que ligam tampos não hemisféricos ao casco, a transições, a bocais ou a câmaras. | Solda circunferencial do costado, tampo torisférico ou elíptico soldado ao casco, cone soldado ao cilindro, emenda circunferencial do pescoço do bocal |
| C | Juntas que ligam flanges, lap joint stub ends, espelhos ou tampos planos ao casco principal, a tampos conformados, a transições de diâmetro, a bocais ou a câmaras de comunicação. Qualquer junta que ligue uma chapa lateral a outra em vaso de lados planos. | Flange soldado ao pescoço do bocal, espelho soldado ao casco, tampo plano soldado ao costado, stub end soldado ao tubo |
| D | Juntas que ligam câmaras de comunicação ou bocais ao casco principal, a esferas, a transições de diâmetro, a tampos, a pacotes de chapas soldadas por difusão ou a vasos de lados planos, e as juntas que ligam bocais a câmaras de comunicação. | Bocal soldado ao casco, bocal soldado ao tampo, câmara de comunicação soldada ao casco |
| F | Juntas soldadas ligando tubos a espelhos, conforme UW-20. | Solda tubo-espelho de trocador de calor |
Resumo didático. Para enquadrar junta em documento contratual, use o texto oficial do UW-3 da edição que rege o seu projeto.
Duas ressalvas do próprio texto que passam batido com frequência. Bocal na ponta pequena de uma transição de diâmetro é tratado pela categoria B, não pela D. E, dentro de um espelho plano, junta de topo é categoria A, enquanto a ligação do espelho ao casco é categoria C: mesma peça, duas categorias diferentes.
Como decidir na prática
Quando bate a dúvida no desenho, a sequência que uso é sempre a mesma e resolve a grande maioria dos casos.
Primeiro: a junta está dentro de uma mesma peça (costado, tampo, cone, bocal, espelho) ou ligando duas peças diferentes?
Se está dentro da mesma peça, a pergunta seguinte é a orientação. Longitudinal ou espiral leva a categoria A. Circunferencial leva a categoria B. Um tampo conformado soldado a partir de gomos, uma virola com solda de composição, uma emenda de topo dentro de um espelho plano: tudo isso é junta dentro da peça.
Se está ligando duas peças, olhe o que está de cada lado. Tampo hemisférico contra casco é a exceção que sobe para categoria A. Tampo não hemisférico contra casco é B. Elemento de fechamento que não é casco nem tampo conformado (flange, espelho, tampo plano, stub end) é C. Bocal ou câmara de comunicação penetrando casco, tampo ou esfera é D. E tubo soldado no espelho é F.

Sequência de perguntas para enquadrar a junta. O tipo de junta (topo, ângulo, filete) não entra nessa decisão.
O ângulo α: quando a circunferencial deixa de ser junta de topo
Esse é um detalhe do texto da categoria B que decide desenho de chanfro e vira discussão em reunião de projeto.
Em transição de diâmetro, a norma define que a junta circunferencial é considerada junta de topo quando o semiângulo do vértice α é igual ou menor que 30 graus, e passa a ser considerada junta de ângulo quando α é maior que 30 graus. A própria Figura UW-3 marca esse ângulo no cone da direita.
A consequência é direta. Junta de topo e junta de ângulo não são o mesmo tipo na Tabela UW-12, então não carregam a mesma eficiência nem as mesmas possibilidades de exame. Um cone mais aberto que 30 graus de semiângulo muda a natureza da junta, mesmo que o desenho de fabricação continue parecido com o de sempre.
Nem toda junta soldada tem categoria
Vale insistir nisso porque gera dúvida em auditoria. O próprio UW-3 lista juntas que não recebem designação de categoria, e a lista não é exaustiva. Entram aí as juntas de canto dos croquis (a), (c) e (d) da Figura UEJ-3-1 da Parte UEJ, as soldas de fechamento de camisa ao casco da Tabela 4.11.1 da Divisão 2, as soldas por difusão em pacotes de chapas soldadas por difusão e os filetes da Figura UEB-13 da Parte UEB.
Para essas juntas sem categoria, a norma esclarece que, salvo limitação em outro ponto da Divisão, valem os tipos de junta permitidos pelo UW-9(a).
Além dessas, soldas de partes não sujeitas à pressão, como berços, suportes e clipes, ficam naturalmente fora do enquadramento de categoria e são tratadas em outros parágrafos.
Por que a categoria muda o seu projeto e a sua inspeção
Aqui é onde o UW-3 deixa de ser burocracia. A categoria é a chave que outros parágrafos usam para exigir coisas diferentes de juntas diferentes. Os quatro pontos onde ela mais aparece:
Tipo de junta permitido e eficiência (UW-9 e Tabela UW-12). A Tabela UW-12 lista os tipos de junta com suas eficiências e limitações, e indica para quais categorias cada tipo pode ser usado. Nem todo tipo é aceito em toda categoria. Um tipo que serve para uma circunferencial categoria B pode não ser aceito em uma longitudinal categoria A, justamente porque a tensão de membrana na direção circunferencial é o dobro da longitudinal em um cilindro.
Grau de exame radiográfico (UW-11). As exigências de radiografia total, parcial ou dispensa são escritas em cima de categoria e tipo de junta. É por isso que o plano de inspeção começa pela categorização das juntas: sem ela, você não monta o mapa de END do equipamento.
Serviços especiais (UW-2). Serviço letal, baixa temperatura e caldeiras não sujeitas a fogo direto impõem restrições que a norma endereça por categoria.
Desalinhamento máximo (Tabela UW-33). A tolerância de offset na montagem é dada em duas colunas: juntas longitudinais (categoria A) e juntas circunferenciais (categorias B, C e D). Para a mesma espessura, a longitudinal aceita menos desalinhamento. Já vi junta reprovada em inspeção dimensional porque o montador aplicou a tolerância de circunferencial em uma solda longitudinal.

A categoria é a chave de entrada dos requisitos de tipo de junta, exame e montagem. Resumo didático, sempre confira o texto vigente da norma.
Onde a categorização costuma dar errado
Erros que aparecem com frequência em desenho e em plano de soldagem:
Tratar tampo hemisférico como tampo qualquer. A junta circunferencial que liga o tampo ao casco é categoria B quando o tampo é elíptico ou torisférico, mas sobe para categoria A quando o tampo é hemisférico. Muda tipo de junta permitido e muda exame. É o engano mais caro da lista, porque só aparece na hora do END.
Chamar toda solda de bocal de categoria D. A conexão do bocal ao casco é D. Mas a solda longitudinal do pescoço do bocal é A, a emenda circunferencial do pescoço é B, e o flange soldado na ponta é C. Um bocal sozinho pode ter três categorias diferentes além da D.
Usar a lista antiga de quatro categorias. Depois da edição 2025, procedimento interno que só reconhece A, B, C e D está desatualizado. Trocador de calor tem categoria F.
Categorizar pelo tipo de solda no desenho. Voltando ao começo do artigo: se o critério usado foi “é de topo, então é A”, a categorização está errada por construção, mesmo quando o resultado acerta por coincidência.
A categorização das juntas não é um exercício isolado. Ela é a base do plano de soldagem e do mapa de juntas, que por sua vez alimentam o IEIS e o plano de inspeção. Antes de chegar nesse ponto, cada junta ainda precisa de uma EPS qualificada compatível, e é aí que entra a ASME IX. Uma coisa alimenta a outra: a Seção VIII diz o que a junta precisa ser, e a Seção IX diz como provar que você consegue soldá-la.
Se a terminologia de junta e de solda ainda gera dúvida na sua equipe, vale passar antes pelo glossário de terminologia da soldagem.
Perguntas frequentes
Categoria de junta é a mesma coisa que tipo de junta? Não é. A categoria diz onde a junta está no vaso; o tipo diz como ela é feita (topo com penetração total, ângulo, sobreposta, filete). Os dois se cruzam na Tabela UW-12, mas são conceitos independentes.
Quantas categorias existem hoje? Cinco: A, B, C, D e F, conforme o UW-3 da edição 2025. Não existe categoria E nesse sistema.
A solda tubo-espelho tem categoria? Passou a ter. Na edição 2025 ela é a categoria F, e os requisitos técnicos dela continuam no UW-20. Em edições anteriores essa junta não tinha designação de categoria.
A ASME VIII Divisão 2 usa as mesmas categorias? A Divisão 2 também trabalha com categorias de junta e o conceito é equivalente, mas os requisitos associados a cada uma são próprios da Divisão 2. Não copie o enquadramento de uma divisão para a outra sem conferir.
Toda junta soldada de um vaso tem categoria? Não. O próprio UW-3 lista juntas que ficam de fora, como certas juntas de canto da Parte UEJ e os filetes da Parte UEB, além das soldas de partes não pressurizadas. Para as juntas sem categoria, valem os tipos permitidos pelo UW-9(a), salvo limitação em outro ponto da norma.
Para fechar
O UW-3 é um parágrafo de uma página que decide o custo de END de um vaso inteiro. Categorizar errado significa radiografar junta que não precisava, ou pior, deixar de radiografar junta que precisava e descobrir isso na auditoria do cliente.
Se a sua fabricação está montando o mapa de juntas de um equipamento e quer segurança no enquadramento, na definição de tipo de junta e no plano de exames, a XP faz esse trabalho junto com a sua engenharia: IEIS e plano de soldagem, coordenação dos ensaios não destrutivos e qualificação das EPS que cada uma dessas juntas vai exigir.
Se o próximo passo do seu time é a documentação de soldagem, comece pelo modelo de EPS ASME em Excel, que é gratuito, ou pelo curso Elaboração de EPS - ASME IX.
